domingo, 1 de julho de 2018
As muletas nossas de cada vida
As muletas nossas de cada vida
Melhor andar do que não andar.
Se prá andar necessitas de muletas, use-as, mas ande.
Mas, quando se sentires mais forte e confiante, abdique do uso das muletas e continue a andar sem elas.
Em nossa vida intelectual, mental, emocional e espiritual ocorre o mesmo.
Muitas vezes não conseguimos andar sem as muletas.
Nos sentimos inseguros, fracos e perdidos.
Em tal situação buscamos por meios, caminhos que nos auxiliem a viver.
Seja uma religião, doutrina, guias, gurus, mestres, instituições e grupos.
Em nossa angústia nos encontramos vulneráveis.
Nesse estado podemos fazer escolhas equivocadas.
Há uma infinidade de muletas oferecidas nos mercados da vida espiritual.
Muletas caras, baratas, bonitas, exóticas, complexas, simples etc.
O importante é andar.
Se as muletas ajudam a andar então vamos usá-las.
Mas, talvez, já estejamos nos arrastando e não mais andando.
Talvez, percebamos depois de um tempo que a muleta escolhida é muito cara.
Ou, que era muito bonita, mas não funciona bem.
Uma outra, que por trás da aparência exótica, complexa, falta autenticidade.
Há uma engenhosa manipulação de conceitos, falácias argumentativas dificilmente percebidas pelos que, por vários motivos, não se aprofundam nos conceitos que absorvem.
A questão é que investimos muito nas muletas no campo religioso, espiritual.
Investimos tempo, dinheiro, investimos nossas vidas.
Criamos um estilo de vida baseado no que abraçamos.
Nos condicionamos.
Nos tornamos dependentes.
Perdemos a coragem de abandonar as muletas mesmo sabendo que não mais precisamos delas, ou quando descobrimos que elas não eram verdadeiras ou necessárias de fato.
E os criadores dessas muletas esperam isso mesmo, apesar de muitos dizerem que não.
Muitos criadores de muletas já não se encontram mais neste mundo e muitos, ainda assim, continuam usando suas muletas.
Na vida espiritual há que se ter autonomia, liberdade, experiência própria
Os verdadeiros mestres nos deixaram ensinamentos que levam a isso.
Mas muitos fabricantes de muletas adaptaram ou corromperam esses ensinamentos para poderem vender suas muletas.
E as pessoas compram.
Mas a vida segue em frente.
A inteligência, a percepção, se desenvolvem inexoravelmente.
Mais cedo ou mais tarde descobrimos nossos enganos e escolhas equivocadas.
A decepção é grande, sentimos a ausência de chão.
Mas é o início de uma vida plena, liberta de líderes, mestres, gurus, guias, instituições.
Claro que sempre tentarão nos convencer de que precisamos deles.
O pastor-muleta dirá que precisamos ir na igreja, nos converter, ouvir a palavra, dar o dízimo e ofertas.
O padre-muleta idem, mais a necessidade do batismo, da eucaristia etc.
O guru-muleta com barbas grandes ou não, com cabeleira ou não e com indumentária hindu, nos convencerá da necessidade de receber o 'darshan', beijar seus pés, cantar mantras orientais, fazer os cursos e ritos de iniciação nos ashrams a preços 'avatáricos'.
Devotos ricos e extasiados com a graça recebida, doarão fortunas para a continuidade da 'muletocracia gurusiana'.
Precisamos nos aprofundar mais em questões como auto-sugestão e inconsciente coletivo para entendermos melhor o que ocorre em ambientes com grande quantidade de pessoas, como igrejas, templos etc.
A lista de muletas religiosas, místicas, espiritualistas, da atualidade é grande.
Sim, com certeza essas muletas têm a sua utilidade para muita gente, para os que ainda não despertaram para um real interesse pela espiritualidade.
A maioria busca por soluções de problemas, status, prosperidade, compensação etc.
Para muitos trata-se tão somente de um meio de fuga.
Fuga de si mesmo, da solidão, do medo, da angústia, dos problemas.
Para alguns a fuga é através de comida, bebida, drogas, sexo, diversão, TV, cinema, esporte, trabalho ...
Já para outros os meios de fuga são igrejas, templos, satsangs, cantar mantras, se ocupar com obras sociais, que em si mesmas são boas e necessárias, mas que muitos, consciente ou inconscientemente, usam como meio de fuga.
Algo que está na moda e se expandiu bastante é o uso de plantas, fumadas, bebidas ou comidas, em rituais e cerimônias, que levam, como dizem, a expansão da consciência.
Como conhecedor, não posso negar os benefícios que há para muitos, mas que para tantos outros tornou-se também uma muleta.
E muita gente, prá variar, lucrando com isso.
A maioria não consegue ficar a sós, silenciar, orar, meditar.
Não.
Preferem ir ocupar suas mentes com alguma atividade, religiosa, mística, ou não.
Até a prática de meditação, para muitos, pode tornar-se, também, um meio de fuga.
Isso, sem considerar algo muito em voga atualmente, que é a ostentação mística.
Os que só meditam em locais públicos, escolas de Yoga, com as devidas indumentárias para dar o clima místico.
Tiram 'selfies' em magnífica posição de lótus e postam nas redes sociais para que todos saibam que eles meditam.
Incapacidade de, na solidão, mergulhar fundo, em silêncio, em tudo que aflige, incomoda, com corajosa introspecção e análise para a devida compreensão e transcendência.
É o mundo.
...
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Um liberto disse há 2000 anos que temos que buscar em primeiro lugar, o que ele metaforicamente chamava de 'reino dos céus'.
Quando lhe perguntaram o que é isso, onde ficava isso, ele não respondeu se referindo a pessoas ou lugares.
Simplesmente disse:
'Está dentro de vocês'.
